BERTRAND, sete anúncios de jornal, 1929-1930
Segunda-feira, Dezembro 7, 2009
Um opúsculo de Herculano de 1837
Segunda-feira, Julho 20, 2009

A Voz do Propheta é a primeira publicação de Alexandre Herculano (1810-1877) a ter impacto, e consequências, públicas. Texto de cariz político e religioso, foi publicado anonimamente, como defesa do cartismo, a pretexto da abolição da Carta Constitucional pelos Setembristas. Herculano, que havia jurado fidelidade à Carta, pedira a demissão do cargo que ocupava como bibliotecário, no Porto, e partiu para Lisboa, onde faz publicar o opúsculo.
Data de Novembro de 1836 a primeira série d’A Voz do Propheta, e em Fevereiro do ano seguinte sai a segunda série. Apesar de partilharem título e temática, são duas publicações distintas e independentes uma da outra, bastante raras em primeira edição.
Na sua forma e estilo, segundo os historiadores sclabitanos Jorge Custódio e José Manuel Garcia explicam na introdução à edição crítica dos Opúsculos de Herculano, foram textos inspirados numa obra de Lamennais:
Regressando a Lisboa e desejando atacar violentamente a situação dominante, [Herculano] decidiu-se a redigir uma obra contundente, e que pudesse alcançar um sucesso idêntico ao que Paroles d’Un Croyant, de Lamennais, tivera em França dois anos antes. Esta, escrita em estilo bíblico, defendia ideais democráticos e fora objecto de duas traduções portuguesas em 1836, uma das quais de António Feliciano de Castilho, que para ela escreveu um prefácio datado de 1835. Mas se as Paroles d’Un Croyant são a fonte mais próxima de inspiração de Herculano, por sua vez este dá à sua obra uma caracterização própria e um sentido contrário, defendendo a Carta Constitucional de uma forma exacerbada contra as atitudes das massas populares que participaram na revolução de Setembro.
A Voz do Propheta é, para lá de um documento vincadamente caracterizado pelo seu espírito político e de combate ideológico, a expressão do Romantismo de Herculano através de uma forma egocêntrica e aceitando o cristianismo como uma religião que corresponde às necessidades do homem.
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Esta é a primeira edição da segunda série d’A Voz do Propheta:



A VOZ DO PROPHETA. Segunda Série, Lisboa: na Typografia Patriótica, de C. J. da Silva e Comp.ª, 1837. /// 13 x 19 cm. Com capas de brochura (e ainda atado com o cordel oitocentista). 32 páginas. Bom estado (picos de humidade limitados à primeira e última páginas). /// Raro. /// Preço: 160 euros.
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Os opúsculos de Alexandre Herculano ocupam um lugar importante na sua obra, e ajudam a perceber como ele se foi posicionando perante a política, a sociedade, a cultura e as instituições do seu tempo, ao longo da sua vida pública. Como é sabido, o autor isolou-se do mundo numa quinta em Vale de Lobos (donde lhe veio a alcunha de «Lobo do Vale»), em 1867, tendo-se dedicado à agricultura e à produção de azeite (o «Azeite Herculano» foi premiado na Exposição Universal de Paris de 1876).
Ramalho Ortigão, ao escrever-lhe o obituário, em 1877 — publicado no volume III das Farpas —, afirma que Herculano estava “morto” desde 1867, ano em que resolveu partir-para-não-voltar de Vale de Lobos:
O dia do nosso grande luto nacional não é aquele em que expirou o solitário ilustre, mas sim aquele em que deixou de existir para o vertiginoso bulício da vida pública o ardente escritor, que no seio da multidão flutuante, estrepitosa, leviana, indiferente, pérfida, traiçoeira, ingrata, lançava às praças e às ruas públicas, lamacentas e sórdidas, as suas ideias de cada dia, nobres, castas, desinteressadas, aladas pelo alfabeto tipográfico, adejando sobre as imundícies e sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impolutas, que vão de alma em alma sacudindo das asas luminosas em pólen diamantino a divina verdade.
Nesses primeiros anos de vida agrícola, o grande historiador foi várias vezes desafiado pelos seus editores, os Bertrand, a coligir e reeditar os numerosos opúsculos que fora publicando desde 1836. O autor acedeu, no início da década de 70, e finalmente em 1873 lá veio a lume o primeiro volume, rapidamente esgotado. A edição constaria de dez volumes, mas apenas os três primeiros preparados por Herculano, sendo os restantes sete póstumos (o último data de 1908).
A Biblioteca Nacional tem a primeira edição dos Opúsculos (bem) digitalizada e acessível online, mas não só: estão lá também, integralmente disponíveis online, a incontornável História de Portugal, as Lendas e Narrativas, o Eurico, o Presbítero, e a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, entre outros (total de 12 títulos). Consulte-se a lista completa aqui.
É curioso, por exemplo, cotejar a primeira edição d’A Voz do Propheta, com a que Herculano preparou para os Opúsculos (conferir a partir da página 77 do primeiro volume), 37 anos depois. Há pequenas alterações estilísticas, visíveis logo nos primeiros parágrafos:

1837:
Lisboa, Cidade de marmore e de granito, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre as cidades do mundo. /// A brisa, que varre os teus outeiros, é pura como o céu azul, que se espelha no teu amplo porto, semelhante a um grande mar.
1873:
Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre as cidades do mundo. /// A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.
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Os Opúsculos em 10 volumes foram inúmeras vezes reeditados, tais como as restantes obras de Herculano, pela sua editora de sempre (Bertrand) até 1982, ano em que a obra entrou no domínio público. Nesse ano, a Editorial Presença iniciou a publicação de uma edição crítica dos Opúsculos, da autoria dos já citados Jorge Custódio e José Manuel Garcia, pensada para condensar os 10 volumes da edição Bertrand em apenas cinco, aos quais se acrescentariam outros três que reuniriam artigos dispersos por jornais e revistas, polémicas, inéditos e esparsos, tais como os Estudos Sobre o Casamento Civil (volume VI). Desses oito volumes planeados, só seis foram publicados, e é de assinalar que hoje, no site da Editorial Presença, não haja uma única referência nem a Herculano nem aos seus Opúsculos, há muito esgotados:

Alexandre Herculano, OPÚSCULOS. Edição Crítica, em 6 volumes, com organização, introdução e notas de Jorge Custódio e José Manuel Garcia, Lisboa: Editorial Presença, 1982-1987. /// 17 x 24 cm (para cerca de 14 cm de estante). N.º de páginas por volume: 438+324+306+507+287+206. Brochados. Bom estado. /// Preço: 60 euros.
rua do Crucifixo, mil oitocentos e tal
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009
De uma occasião, cavaqueando o Innocencio e o Meréllo, na loja do livreiro Rodrigues, da rua do Crucifixo, farejaram um livro de valia; cuidando, qualquer dos dois, que, o outro, não houvesse dado por elle.
Principiaram então, como que ao desafio, em espertezas, procurando mutuamente afastar o competidor do logar da maravilha.
Já um chamava o outro para a porta, e lhe narrava não sei que historia em grandes ares de confidencia; — já o outro consultava o relogio e lhe dizia a hora, adiantando-a, ao passo que lhe perguntava qual fosse a sua hora de jantar… Nem o Meréllo nem o Innocencio arredavam um passo da baiuca do livreiro, recinto encantado da ambicionada joia.
N’isto, não se atrevendo um nem o outro a desampararem a caça, nem, tão pouco, a separarem-se, sairam juntos.
Innocencio, morava n’esse tempo, ao Rato, na rua de S. Filippe Nery; o Meréllo, como que deleitando-se com a sua conversação, foi indo até lá.
Uma vez chegados, disse-lhe o auctor do Diccionario Bibliographico:
— Você onde vae?
O Meréllo, titubiando, denunciou, porventura, na sua hesitação, o designio que guardava em seu animo? Chi lo sá?!
Respondeu conforme poude:
— Eu agora… estou capaz de ir… tenho por força de ir agora…
— Para cima?
— Não; ali, para aquele lado…
Innocencio fixava-o no branco dos olhos.
— A Santa Isabel!!! acrescentou Meréllo, que, com o ganhar tempo, cobrára animo, e revigorára o seu espirito. Vou a Santa Isabel, e, adeus, que não me posso demorar!!!
— Então, adeus! disse-lhe o Innocencio. E obrigado pela companhia.
Meréllo, em passinho de pulgam cortou para a direita, pelo largo do Rato fóra, e sumiu-se detraz da esquina.
Dois olhos, porém, o acompanhavam, vigiando-o, sem fallarmos nos da providencia, que, talvez, n’aquella hora, o não seguissem com tanto disvélo…
Eram os olhos do Innocencio, que, logo depois de fechar a porta da rua, de novo a abrira, de mansinho, encostando-a habilmente, de maneira que podesse vêr sem ser visto.
Espreitando o Meréllo no rapido ápice de dobrar a esquina, ahi foi logo, de corrida, de voada, o Innocencio, encostar-se, meio escondido, na diligencia de observar, se, effectivamente, o Meréllo seguia pela rua do Sól, a fim de cortar depois á esquerda para Santa Isabel.
Mas, — oh! confirmação de suspeita! — o Meréllo virou pela rua de S. Bento, e, d’este modo, revelou a engenhosa estrategia com que estivera a ponto de levar de vencida o seu competidor.
Innocencio Francisco da Silva não pensou uma, não pensou duas, nem tres vezes, e, voltando a metter-se na rua da Escóla Polytechnica, desceu pressuroso, aos encontrões a quem ia e vinha; elle, para o passeio; elle, para o meio da rua; zás, pás; de salto, pulo, e gangão; respirando apenas; apertando o figado, abalado pela furia da correria; até quem catrapuz, cahia de chofre na loja do livreiro, onde, em caso immediato, se embrulhava com um vulto, que, tambem de repellão e de tombo subito, penetrava ali…
Era o Meréllo!
O Meréllo, que, suspeitoso e inquieto pelas perguntas do Innocencio, correra ao livreiro, e alcançára, pela rua de S. Bento, Calhariz e Chiado, chegar ao Pote das Almas ao mesmo tempo que o seu rival illustre, por S. Pedro de Alcantara e S. Roque: em passo vertiginoso, de bibliophilos, ambos elles; — o incomparavel passo, que fez sempre a inveja do Bargossi! o andarilho Bargossi!
Com razão se diz serem mudas as dôres supremas. No meio do reboliço que houve n’aquella loja, quando os dois alfarrabistas se atropellaram ao entrar ali, qual d’elles com maior ancia, foi o Meréllo o primeiro a conseguir deitar a mão ao livro. O Innocencio, que tinha uma tremenda lingua de palmo e meio, terror do proximo, metteu-a no bucho, e, engulindo em secco, viu o outro arrecadar o livro no bolso do peito, abotoar-se á mesm’alma, pagar o livro ao Rodrigues, e sair, ficando quêdo e mudo, como se, aquelle caso formidando, estivesse a ponto de entupir-lhe por uma vez a falla.


[reprodução integral da primeira das Mil e Uma Histórias, de Julio Cesar Machado, Lisboa: Empreza Litteraria, 1888, pp. 7-10 --- para uma imagem maior ou mais legível do cartaz do Bargossi, o melhor é ir directamente à fonte]
leilões de livros: impressões de um leigo (1)
Quinta-feira, Outubro 23, 2008
Leilão Renascimento de ontem, 22 de Outubro, e anteontem, 21 de Outubro. Retiradas de leilão, por falta de licitações, duas primeiras edições, tão diferentes e tão poéticas, as suas datas de publicação distando 470 anos bem medidos: A Comunidade de Luiz Pacheco, e a Logica – um dos últimos incunábulos portugueses – de Pedro Hispano. Muito antes, um Botto (fase religiosa) só teve uma licitação. Alguns Reynaldo(s) dos Santos foram retirados: vulgares ou sobrevalorizados? O álbum da Cooperativa Árvore quintuplicou o preço base. Toda a edição com um toque de Almada se engalanou. Muitos álbuns de arte relativamente baratos ficaram por vender. Ninguém pegou numa história ilustrada dos balões. E houve pouca adesão a meia dúzia de obras sobre tipografia. Já no final da primeira noite, esgotado por todos estes dramas, perdi a cabeça e decidi ir até às últimas consequências no lote 455. Ao sinal de partida, ergui a raquete empedernido, preparado para tudo, percorrendo com olhar subreptício a sala em busca de adversários, à espera do início da contagem ascendente, acelerada, ininterrupta e louca, que me iria levar, tipo, à desgraça na vida. Mas na sala só havia silêncio. O desinteresse era total. O martelo bateu. O livro era meu.
Livreiros d’antanho (1): Manuel dos Santos
Quinta-feira, Setembro 25, 2008
O ALFARRABISTA MANUEL DOS SANTOS, por João Paulo Freire (Mário):
Aquêle Manuel dos Santos que acompanhámos ao cemitério, merece bem duas palavras de necrologia. Êle foi o mais completo expoente do que é e do que pode ser uma vocação, porque, de ofício bem diferente, como seu irmão José, ambos se lançaram à vida de livreiros-alfarrabistas, ali em baixo ao fundo dos Paulistas, na mesma acanhada baiúca onde hoje pontifica José dos Santos.
Ali começou para os dois o comércio do livro raro e do livro usado. Do livro que já se não quere e do livro que ansiosamente se procura. Um dia o Manuel separou-se do irmão e veio para a esquina da Bica, já livreiro lançado, e uma que outra vez livreiro-editor, em assuntos camilianos. Foi o Manuel dos Santos que me editou, em 1917, A Campanha da Lápide, como cinco anos depois editava, a Alberto Pimentel, O Torturado de Seide.
Como livreiro, Manuel dos Santos foi dos mais arrojados do seu tempo. Pode afirmar-se que fêz o que se chama uma revolução no mercado do livro antigo. E sem ter fundos conhecimentos, quási sem base própria, era tal a sua vocação e a sua fôrça de vontade, que muitas vezes supria pela audácia inteligente a sua impreparação.
Deixa uma vasta obra de catalogação bibliográfica, obra importante, de admirável documentação, por cujas páginas passa o que temos de melhor na bibliografia portuguesa.
Como livreiro camilista, Manuel dos Santos, não só criou, a seis anos do centenário, o gôsto e a procura pelas raridades de Camilo, como, tornando-se o seu comentador bibliográfico, nos deixou a melhor, a mais completa e a mais interessante de tôdas as documentações que no género têmos sobre Camilo. São dois volumes e um tômo, já hoje raros, estimados e valorizados no mercado livreiro.
Na sua pequena loja, hoje muito desfalcada, havia, ainda não há muito, verdadeiras preciosidades que êle vendeu, principalmente para a Inglaterra e para o Brasil, e, pode afirmar-se que, tirando seu irmão José, tinha, como livreiro, a mais preciosa de tôdas as camilianas que eu conheço.
Activo, enérgico, trabalhador, morre na fôrça da vida, um rapaz ainda, quando precisamente os seus conhecimentos adquiridos o começavam a impôr como um valor na difícil e complicada ciência de conhecer os livros.
De bem conhecer, de bem os comprar, e de melhor os vender…
Tinha admiráveis qualidades como cidadão, e era, no meio livresco lisboeta, uma figura interessante que se impunha, pela sua lealdade, pela sua bondade, e para nós jornalistas pela amizade que a quási todos dispensava, amizade cheia de franqueza, amizade de quem percebia, por um fino espírito de subconsciência, que, jornalistas e livreiros, são duas classes afins.
Pobre Manuel dos Santos!
Ainda há meia dúzia de dias êle me dizia, brincalhão e alegre, referindo-se ao seu leilão marcado para ontem:
- Vê lá, não faltes. Olha que tens lá pechinchas!
Não faltes… Sim. Eu não faltei. Êle coitado é que não presidiu à venda dessas pechinchas.
Veio a morte [8 de Janeiro de 1922] antes de tempo e fechou-se a última folha dêste safado livro da vida que todos nós vamos agora lendo, parece que em 2.ª mão…
Que descanse em paz, o pobre Manuel dos Santos.
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«O Alfarrabista Manuel dos Santos» in João Paulo Freire (Mário), TÔRRE DO TOMBO… Crónicas Dispersas, Lisboa: Edição do Autor, 1937.









