Margarida Rebelo Pinto, objecto de estudo académico (2004)
Terça-feira, Julho 7, 2009
«The settings are unashamedly middle-class: all the protagonists have cars, credit cards and maids. The maids, secretaries, receptionists, policemen and shop assistants provide background colour but are distinguished from the main characters by their incorrect speech or strong accents, their interior decorating, their clothes and their manners. The bad taste of the lower classes and the nouveaux-riches is described scornfully and gleefully by both characters and narrators: tracksuits, shoes with tassels, extreme mini-skirts, excess cleavage or man-made fabrics. The assumption of what is good taste and what is bad is never questioned. This clear-cut class divide is patronising and perpetuates stereotyped images of both the bourgeoisie and the working class. Relationships that cross class barriers are frowned upon and broken up by the heroines wherever possible.»
Uma análise muito british, por Claire Williams, da Universidade de Liverpool: Não há coincidências? Women’s Writing in Portugal in 1974 and 2004.
«Lesbians are even less visible in this kind of literature. Rebelo Pinto’s plain, overweight, bitter Maria do Carmo falls in love with her sister-in-law Kika, another “Ugly Duckling” (PCN, 80), and leaves her husband. Her behaviour is explained gradually, as details of her past are revealed: her father was a womaniser who beat her mother into submission and abused her sister. Ironically, Maria do Carmo is one of the few characters whose story ends happily. Lina is another lesbian, a peripheral character who is colourful and eccentric, but nobody’s fool. She is described affectionately (?) as “a chefe do bando das fufas de 1,47m, daquelas baixinhas poderosas que, quando levantam o sobrolho, são capazes de silenciar uma sala repleta de homens” (PCN, 209). These portrayals are extreme and cartoon-like, serving to reinforce stereotypical ideas about homosexuals, confirming preconceived ideas about their appearance, their taste and situating them firmly outside the mainstream – “they” are not “people like us”.»
Um artigo para o congresso da Universidade de Utrecht, THE VALUE OF LITERATURE IN AND AFTER THE SEVENTIES: THE CASE OF ITALY AND PORTUGAL, acontecido em 2004.
«Vat 69»
Segunda-feira, Junho 8, 2009

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta-e-um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos para morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam de laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maçãs no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se para nós
— orate fratres — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbedos estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola para saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempo de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casas em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder

[páginas 74 a 76]
Ruy Belo, Antologia Poética. CIDADÃO DE LONGE E DE NINGUÉM, prefácio e selecção de poemas de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, fotografia da sobrecapa de Duarte Belo, Círculo de Leitores, Lisboa, 1999. /// Cartonado com sobrecapa, 238 páginas, 15 x 22 cm. /// Preço: 12 euros (vendido).
uma história alfarrabista de Aníbal Fernandes
Quarta-feira, Setembro 3, 2008
Visitar o alfarrabista é acto de regras muito próprias. Jogo – faz-se entre adversários que se espiam e constroem lanços a partir de uma observação atenta de faces, sorrisos, olhares, de um gesto mais ou menos nervoso das mãos – moldado entre cautelas que a prática e só ela enuncia para adaptar ao risco de cada situação. E o alfarrabista, manejador das pretas, vemo-lo com características que se intercalam entre dois pólos – um deles aceitando toda a tralha como ouro, e marcando-a a preço de ouro, e outro senhor de duas ou três antigas ideias-feitas que deixam o caudal escorrer, indefeso, por inocências de uma vasta incultura literária e bibliográfica.
O visitante do alfarrabista especializa-se. Roda-se por farrapos de papel e bafios, acha-se capaz de saber estender a mão no momento certo ao livro certo e, com um olhar treinado em lincismos (palavra do próprio Celine, adiante), descobrir o tesouro oculto por um montão de destroços. O visitante roda-se e pode actuar sem correr do risco ao acidente. Começa a ter justa percepção de que este Yves Navarre, vendido ao desbarato, continuará a sê-lo mesmo que a sua dedicatória autógrafa (intimíssima – como é que é possível?…) lhe inspire um gesto menos controlado no momento da captura; mas aquele Tagore autografado (as voltas que o mundo dá!) por um conhecido realizador italiano de férias em Biarritz, pode implicar um grau de risco-em-escudos que aconselha calma e uma afectação bem mimada de grande desprendimento.
Há, no entanto, a situação superlativa do cheque-mate ao alfarrabista, rara nesta ronda de fanáticos mas a exigir, se aparece, o domínio mais sábio de todos os músculos faciais. Imagine-se, por exemplo, aquele lote de «franceses» vendidos ao quilo por uma viúva apressada, com preços que rodopiam em redor de um fulcro baixo de 50 escudos, e que lá no meio esconde, humilhado entre doudês, zolás e rolas, um mítico, um «impossível» Bagatelles pour un Massacre de Louis-Ferdinand Céline.
O visitante rodado começa por um instante de dúvida; passa a outro, imaginativo – quem sabe lá se a capa está «errada» e, pela espessura, embrulha mas é O Circo de Leão Penedo, ou a Ana Paula de um tal Paço d’Arcos – e só depois cai todo em si e vê que sim, que aquelas 400 páginas são, pura e simplesmente, «as tais», as que são capazes, num qualquer leilão de livros, em Paris, de pôr à mostra não sei quantas notas das maiores notas que lá se ganham e gastam. Para um cheque-mate eficaz há que pedir grande domínio a todo o corpo, exigir da voz a entoação plausível dos momentos neutros e empregá-la numa frase inventada ali, entre parâmetros da maior banalidade:
– Olhe, com o Namora vou levar mais este…
Depois, no eléctrico – como nunca chamado Prazeres – começa a ouvir-se o que gritam, irritadas, as Bagatelles. E embora no Poço dos Negros ainda não se tenha encontrado nada capaz de justificar uma maldição inapagável de 50 anos, passando em S. Bento já os insultos sobem de tom, e em Campo de Ourique segue de rastos todo um cortejo de judeus…
[Primeira parte da introdução de Aníbal Fernandes ao livro de Céline que traduziu para a Hiena, Vão Navios Cheios de Fantasmas…, Lisboa, 1986, capa de Augusto T. Dias, 63 páginas, 14x20cm, à venda cá na loja por 8 euros.]
Outras obras de Céline que por cá moram, igualmente em traduções de Aníbal Fernandes:
Viagem ao Fim da Noite; 1.ª edição desta tradução, 2.ª edição portuguesa; cartonado em tela verde (exemplar sem a sobrecapa de Luís Duran); 474 páginas, 14×23cm; 10.º volume da colecção Clássicos do Romance Contemporâneo, Lisboa: Ulisseia, 1973. Preço: 9 euros. (vendido)
Viagem ao Fim da Noite; 2.ª edição desta tradução, 3.ª edição portuguesa; brochado; capa de Luís Duran (semelhante à sobrecapa que cobria a 1.ª edição desta tradução); 474 páginas, 14×22cm; 10.º volume da colecção Clássicos do Romance Contemporâneo, Lisboa: Ulisseia, 1983. Preço: 10 euros. (vendido)
Vértice #293 (Fev.’68)
Segunda-feira, Agosto 11, 2008
AGOSTO É UM MÊS DIFÍCIL
agosto é um mês difícil
árido
por isso escrevo: «aqui
agosto magoa os músculos.
é um tempo de fuga
nos mapas novos do mar. por vezes
esperamos uma mulher um peixe
obceca-nos um peixe é frio e liso
respira intensamente com o barco
onde foi recolhido».
agosto é uma dor aguda
no pescoço
por isso acrescento: «o Porto sufoca
sob a caliça das paredes o homem pensa
uma viagem diferente. é tempo de ócio
de ódio
no granito do chão um desespero
mudo e ácido».
agosto sabe a bronze tem a
consistência do bronze
por isso escrevo: «aqui
abrimos a crosta do silêncio: é como
morder um limão».
ANTÓNIO MANUEL LOPES DIAS
História dum Livro
Quarta-feira, Junho 11, 2008
Cochofel
Terça-feira, Abril 15, 2008

Os Passeios do Sonhador Solitário: Almeida Faria encontra Mário Botas em 1982
Quarta-feira, Março 19, 2008

Caneças, 1951
Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Redol, Uma Fenda na Muralha
Domingo, Fevereiro 24, 2008





